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Ataque Periférico


Data:
9/6/2009
Por:
Andréa Ariani


Desde 2001 na estrada, os cariocas, após 8 anos de estrada, anunciam senão o fim, uma parada por tempo indeterminado. Nada de brigas, confusões, esgostamento artístico ou coisa parecida, mas por falta de tempo de se dedicar à banda. Confira o bate-papo com a banda antes do último show.

Rio Underground: No inicio do mês passado, vocês anunciaram o fim da banda. O comunicado é numa boa, mas com um crescer de bandas anunciando o fim, o fim do Ataque ou parada por tempo indeterminado caiu como uma bomba no underground, ou pelo menos na cena carioca. Como tem sido a repercussão?
Athos: Estamos recebendo mensagens bem legais de várias pessoas. Assim como nós, muita gente ficou triste pelo fim da banda. Mas, como está escrito lá no comunicado, foi preciso. Várias mensagens estão chegando por Fotolog, Orkut, MSN, o que nos deixa felizes por sabermos que nosso trabalho agrada tanta gente.

Rio Underground: Como foi à escolha das bandas para esse último show?
Athos: Às bandas foram escolhidas a dedo. Nossa preocupação foi escolher ótimas bandas e que tivessem amigos nossos. Netinhos de D. Lázara e Nodora, por exemplo, são bandas que alguns de seus membros já fizeram parte do Ataque em algum momento. Para nós vai ser um prazer fazer nosso último show ao lado dessas bandas e pessoas.

Rio Underground: A história da banda muita gente conhece e sabe da importância nesses 8 anos, da experiência de ter tocado fora do país, de lançar vários discos. O que vocês acham que, caso esse tempo indeterminado vire definitivo, estão deixando para a história da cena?
Athos: Sinceramente, eu não sei. Bandas surgem e acabam todo dia, é um ciclo. Acho que o que vamos deixar mesmo é um trabalho que fizemos com muito carinho. Eu acho que a banda proporcionou mais coisas para a gente que toca na banda do que para a cena.

Valcimar: Sem demagogia? Acho sim que vamos deixar um bonito legado para cena carioca – em especial – e um ótimo exemplo de onde uma banda pode chegar, caso ela queira. Fizemos tudo o que queríamos fazer, fomos pra Europa, rodamos o Brasil, lançamos discos, conhecemos muita gente. E ao meu ver, isso é o fundamental para uma banda. Sempre estivemos envolvidos em organização de shows nesses oito anos, seja um integrante mais ativo em uma época, outros em outra. Queria ou não, gostando ou não, conseguimos nos transformar em uma das grandes referências cariocas de hardcore. Isso me deixa muito feliz e me deixaria ainda mais feliz, se daqui um ou dois anos, bandas mais jovens do que agente chegar e ir pra Europa, tomar nossa história como exemplo e meter as caras, ir, conquistar. Acho que deixamos isso pros que estão vindo aí. Que dá sim pra ter uma banda e não ser tosco, podre. Que você tem sim que se preocupar com uma série de coisas que a maioria arcaica da cena acha que não é hardcore, como cobrar cachê, comprar bons equipamentos, se preocupar com produtores picaretas etc etc etc.

Rio Underground: Com essa bagagem toda, como vocês vêem a cena atual e as mudanças que ocorram nesses anos todos? O que acham que está melhor ou pior?
Athos: A cena está se renova sempre. Eu acho que as pessoas na cena estão preguiçosas. Poucas são as pessoas hoje em dia que estão correndo atrás de alguma coisa. Parece que a galera mais nova quer muito ser famosa e esquece de algumas coisas básicas, não ás fazem e esperam cair do céu.

Eu acho que o que piorou na cena foi a qualidade do som e esse lance de vender ingressos. E volta naquilo da galera ser preguiçosa. Nem pensar direito a galera está pensando. Ao invés de pagar R$400 pra tocar em um evento o cara pode fazer o seu próprio evento. Enfim, não gosto de ficar julgando. Mas acho que faz isso é uma forma de matar o que foi construído por anos.

O de bom, eu acho que é a qualidade dos equipamentos. Eles estão mais acessíveis. As bandas estão viajando mais, a internet está ajudando bastante.

Valcimar: Creio que estamos passando por uma entre safra como acontece de 5 em 5 anos, com o fim de mais uma moda as pessoas ficam meio sem saber pra onde ir, e a cena sempre foi assim. Ficam uns guerreiros, não adianta! Lembro muito bem quando começamos no fim de 2001, não tinha nada, e agente alí meio que: vamos fazer uma banda de hardcore simples e direta, que toque muito rápido. Não tinha mais ninguém fazendo isso na área. Isso fez com que agente crescesse muito, pois o único lugar que tinha para tocar na época era o rato no rio, na qual já estava descambando timidamente pro cover, e que também nunca gostamos de fazer política, e isso fez com que agente desde o início tivéssemos que nos virar bonito, caso quiséssemos conquistar as coisas na qual almejávamos. E hoje as coisas estão muito mais fáceis, creio que as bandas que vão conseguir passar por essa fase, serão aquelas que vão fazer seus corres pelo simples prazer de fazer o corre. Porque pra tocar está muito fácil, caso você tenha 400 reais pra abrir pra uma banda de nome.

Rio Underground: Entre o anúncio do fim, a escolha e divulgação do lugar para o último show tudo aconteceu bem rápido. Não há mesmo possibilidade de shows em outros locais ou outras cidades?
Athos: Não. Esse show vai ser o último mesmo.

Valcimar: Na verdade essa parada (ou fim) não é uma coisa na qual seja um desejo nosso, é uma decisão que está sendo obrigado a ser tomada, por mais simples que pareça fazer um show em Sulacap (nossa área) perto de casa e dos amigos, até esse tem uma série de complicações para ser feito. E isso nos impede de pensar em algo além de um simples e único show. Eu gostaria muito de fazer shows de despedida em cidades que pra mim ficaram marcado na história da banda como: Barra Mansa, Juiz de Fora, Macaé, Cabo Frio, Recife, Natal. Muita gente dessas cidades escrevendo triste, e torcendo para que agente não demore muito para voltar, porém o maior motivo da parada (ou fim) é exatamente esse, a impossibilidade de unir a agenda dos 4 e fazer os shows na qual agente era convidado, estava difícil tocar no Rio de Janeiro em um simples domingo, imagina tirar uma semana e ir para o Nordeste? Melhor do que ir fazer shows de despedida nessas cidades, seria não parar com a banda, e ir pra lá em mais uma turnê, porém.



Rio Underground: É bem característico e, assim (guardadas as proporções) como bandas do Nordeste que fazem sons mais regionais, o Ataque é uma banda essencialmente carioca, que fala da periferia da cidade, torcedores do Flamengo e apesar de tocar fora, são bem mais conhecidos no Rio de Janeiro. O que acha desse regionalismo? No caso de vocês aconteceu naturalmente de retratar o local de origem ou sempre foi intencional mostrar o Rio pelo olhar do Ataque?
Athos: Todas as bandas têm uma abordagem. Umas falam de amor, outras de futebol, guerra, família, etc. A gente preferiu falar do Rio de Janeiro. É nossa cidade, é a mais bonita do mundo, apesar dos problemas amamos nossa terra. Sempre quisemos mostrar o Rio de Janeiro de um modo não tradicional. O Rio não é só praia e Cristo Redentor. O Rio são os trabalhadores que pegam o trem de manhã, o futebol de domingo, churrasco na laje. O Rio são as coisas simples.

Valcimar: Creio que no nosso caso, meio que saiu natural. Eu que escrevo as letras e no inicio, você alí naquela paudurecência de início de banda, primeira banda. Você acaba não pensando muito, sai escrevendo, e acaba se influenciando demais nas bandas que você está ouvindo e pelas bandas a sua volta. Porém uma coisa que foi bem natural foi esse jeito meio carioca de escrever, e de se portar, desde muito cedo agente começou a viajar para São Paulo, Minas Gerais e víamos que éramos muito diferentes. Com o passar do tempo fomos intensificando isso da melhor forma possível, e achando muito agradável, isso nos deixa muito orgulhosos, porque as bandas de hardcore no Rio de Janeiro e em outros estados eram paulistas de mais, assim como as bandas brasileiras eram muito americanas ou europeias, e como essa temática de subúrbio do Rio de Janeiro, escrever de uma forma mais repórter, não era muito explorado, ou explorado de jeito nenhum, foi meio que a deixa para a banda ser mais natural possível, e com o passar dos tempos ás letras vinham, e os muleques se identificavam muito. Foi fluindo, afinal todos da banda soltaram pipa, arrebentaram o dedo jogando bola descalço, brincava de dar calote em ônibus, além de ter a sagacidade de saber quando e como voltar pra casa, em épocas de guerra. Ter tido amigos e mais amigos no tráfico de drogas, de tomar dura de polícia, de torcer pro flamengo, de pegar trem lotado pra ir trabalhar, de tentar melhorar de vida.

Rio Underground: Avaliando a discografia, sei que é como fazer um pai escolher qual filho gosta mais, mas qual o disco que vocês acham mais importante ou que representa mais o som e a essência do Ataque?
Athos: Bom, os discos do Ataque são diferentes. Cada um teve um momento e um som diferente. Acho que cada um tem sua importância. A demo fez a gente se firmar aqui no Rio. O Esperto que é Esperto levou a banda pro Nordeste, tendo apenas dois ou três anos de existência, fizemos contato e amigos que ajudaram e ajudam a banda até hoje. Já o Caverão nos firmou na cena nacional. Com ele o Ataque foi pra Europa, rolou outra turnê no Nordeste passando por uns dos melhores festivais do Brasil. Cada disco tem sua história.

Valcimar: A percepção do Athos sintetiza bem os discos, porém eu tenho um carinho todo especial pelo Caverão, por toda a temática que ele envolve, pela evolução musical que a banda teve de um disco para o outro, mesmo ele sendo um disco muito difícil de ser tragado de primeira, principalmente na questão letra. Eu fiquei muito feliz quando uma vez uma pessoa chegou e perguntou, “você que escreveu todas as letras do disco? Pois, você conseguiu sintetizar exatamente o que é minha vida do momento que eu acordo até o momento que eu vou dormir”, isso me deixou mais feliz do que o disco ter vendido muitas cópias. Porque ele teve como ideia principal, sintetizar exatamente agente de forma nua e crua, e também pelo lado artístico que ele representa, por ser um disco extremamente temático, da gente ter pensado nele assim, e ter executado de tal maneira.

Rio Underground: Há possibilidades desse novo trabalho que estava sendo gravado ser lançado ainda esse ano? Alguma novidade sobre ele?
Athos: Lançado ele vai ser, mas não sabemos quando. Já tem muita coisa gravada, mas estamos com uma indisponibilidade de tempo que não nos permite cravar uma data.

Valcimar: Como o Athos disse, data específica é difícil, porém assim que passar o show de despedida, iremos nos empenhar para que termine a última parte da gravação, e produção para lança-lo.

Rio Underground: Quais os novos projetos de cada um? Há possibilidades de uma nova banda surgir ou de continuar fazendo trabalhos ligados à música?
Athos: Com certeza! Eu tenho um site que fala sobre música. Vou tocar com o Rafael e o Thiago - que tocou bateria em alguns shows do Ataque quando nosso batera oficial não podia tocar - no Deus Castiga, uma banda de grind. E estou vendo um projeto. Mais pra frente o pessoal vai ficar sabendo.

Valcimar: Eu me aposentei, agora eu, juntamente com o Bangu (ex-baxista do Fokismo) iremos aos shows jogar dominó.

Rio Underground: Como de costume, deixe uma mensagem para a galera do Rio Underground.
Athos: Obrigado a todo mundo que tem mandado mensagens pra gente e que não queriam o fim. Ficamos muito felizes em saber que tantas pessoas gostam da banda. Obrigado também ao pessoal do Rio Underground pelo espaço. Todos serem bem-vindos no nosso último show, dia 14 no Parada Alternativa, em Sulacap, aqui no Rio. Abráá!!!

Valcimar: Antes de agradecer, gostaria de parabenizar o portal, que já esta aí na ativa a muito tempo, se eu não me engano, a banda e o portal meio que começaram na mesma época. E vocês são mais um exemplo de resistência! E agradecer pelo espaço, e por toda moral dada ao Ataque todos esses anos.







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